5. GERAL 27.3.13

1. GENTE
2. EDUCAO  O ENEM PODE VIRAR PIADA
3. IMPRENSA  ABUSOS E EQUVOCOS
4. AVENTURA  A VIDA A -90 GRAUS
5. ESPECIAL  O POVO  DO PAPA
6. ESPECIAL  O CONTO ARGENTINO
7. ESPECIAL  A IMITAO DE CRISTO
8. ESPECIAL  A CRUZ E A ESPADA NA GUERRA SUJA
9. FILANTROPIA  A VISO DE MUNDO DE CLINTON
10. GATRONOMIA  ANCESTRAL DA MODA

1. GENTE
Juliana linhares. Com Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marlia Leoni

CINQUENTONA, FELIZ E DESENCALHADA 
Fazer 50 anos costuma assustar as mulheres  com exceo das apaixonadas. Feliz da vida com o namorado novo, o cantor Junno, 49, XUXA diz que no liga para os cabelos brancos ("acho lindo") nem para as rugas (a dermatologista "d um jeito nelas", mas, no, ela no usa Botox, s passa mamo no rosto e o mergulha em uma bacia de gelo, diz). Os quilinhos a mais, que ela jura ter, tambm no a preocupam. "Beijar emagrece, e eu estou num regime bravo." O "regime" comeou h trs meses e no deixou s a apresentadora contente. "Nunca pensei que tanta gente torcesse para eu desencalhar!" Prova de que o derretimento  mtuo, Junno, convidado a falar da namorada, mandou versinhos de amor em sua homenagem: "H momentos na vida em que tudo se encaixa / Tudo tem cor / Tudo tem graa / O destino traz o que o tempo disfara / O meu sonho distante... Maria da Graa". No  mesmo para comemorar?

CAIU NA REDE,  FOGO
Pobres famosos, nem namorar em pensamento agora podem. O ator MURILO ROSA, o lcio de Salve Jorge, contou  policia que estava no Skype com sua mulher, a ex-modelo e apresentadora Fernanda Tavares, quando um hacker entrou na linha, pegou imagens dele em pleno exercido remoto do amor e passou a chantage-lo com ameaas de jogar nas na rede. "Localizamos o dono do celular do qual veio a extorso. Ele est colaborando com as investigaes", diz Rodolfo WaldecK, delegado do caso. Para o advogado de Murilo, Ricardo Brajterman,  possvel que algum tenha instalado um programa de roubo de dados no computador do ator. "Ele esta arrasado. Teve a intimidade violada.

MAME TEM SETE FLEGOS
Quanto custa sustentar por quinze anos o ttulo de modelo mais importante do mundo? Bem, no caso de GISELE BNDCHEN, parece que no muito. Basta continuar fazendo o estilo de sempre, uma mistura de naturebice politicamente correta (sim, o canguru  de algodo orgnico e, claro, tem parte das vendas dedicada a ONGs humanitrias) com uma pegada de trabalhadora p de boi, que no descansa nem nas condies mais adversas. A pequena VIVIAN LAKE, sua caula com o jogador Tom Brady, nem bem completou 3 meses e a me j volta ao batente, em uma campanha em So Paulo. Ah, sim, manter a pose e a barriguinha  no caso dela praticamente negativa  protegida de olhares indiscretos tambm ajuda .

AMOR  ARTE
Quando uma novela nem acabou e s se fala na que vai entrar no seu lugar, huuum, isso no  uma pista de que deixar saudade. Amor  Vida, que s em maio substitui Salve Jorge, j est na boca de todo mundo.  FERNANDA MACHADO, 32, a boazinha Maria do filme Tropa de Elite, ser a vil Leila. A atriz passou os dois ltimos anos fazendo filmes; um brasileiro e outro em Los Angeles. Para gravar The Brazilian, o gringo, ela se hospedou na casa do namorado americano.  O negcio deu to certo  no propriamente o filme, mas o romance  que o casamento foi marcado para o fim do ano.  Nesse tempo, ela tambm fez uma pea na qual caa de uma maca. A montagem ficou um ano em cartaz e, de tanto cair, Fernanda precisou ser operada de uma hrnia cervical. Recuperada, mostra o resultado na revista VIP.

ATREVIDA SERIAL
Vm de longe os desencontros de LINDSAY LOHAN, 26, com a lei. Desde 2007, a atriz j foi detida por guiar sem habilitao, por portar cocana e por dirigir embriagada. Em junho de 2012, bateu ponto na delegacia outra vez. Depois de acabar com o seu Porsche, disse  polcia que um amigo  quem estava ao volante. O amigo a desmentiu e ela foi condenada duplamente: por dirigir perigosamente e por mentir s autoridades. Agora, vai para a rehab (de novo). Se se comportar bem na clnica, se livra da cana. Mas, a contar pelo olharzinho desafiador do ltimo registro policial (ela j tem seis na coleo), a regenerao no parece estar nos planos imediatos de Lindsay. 


2. EDUCAO  O ENEM PODE VIRAR PIADA
Redaes com receita de Miojo, hino de clube e erros grosseiros de portugus foram bem avaliadas.  de doer!

     Os avaliadores mais criteriosos levam cerca de trs minutos para ler e atribuir uma nota  redao do Enem. A maioria, porm, d cabo da tarefa na metade do tempo, uma proeza diante da magnitude das modalidades a examinar: domnio da norma culta da lngua e de conceitos em diferentes reas, capacidade de organizar ideias, construir argumentaes slidas e descortinar sadas para o tema em questo. Um nico profissional costuma se debruar sobre pilhas e pilhas de texto. Quanto mais corrige, mais recebe. O pagamento  por redao: 2,35 reais cada uma. So raros os que passam os olhos palavra a palavra. O mais comum  fazer leitura dinmica, tentando rastrear indcios que possam subsidiar a nota. O batalho de 5596 profissionais que corrigiu os 4,2 milhes de redaes do ltimo Enem passou por treinamento de sessenta dias, via internet. "Extraoficialmente, recomenda-se que sejam flexveis e tolerantes com erros. Com uma peneira muito severa, quase nenhum estudante sobreviveria", diz a VEJA um ex-integrante do comit responsvel pela correo das redaes. Em outras palavras, o processo no s  altamente sujeito a leviandades e equvocos como, sim, nivela todo mundo por baixo. 
     Na semana passada, vieram  luz exemplos concretos dos absurdos que esse sistema produz. At mesmo entre as 2080 redaes que cravaram a nota mxima, v-se um festival de erros de concordncia e ortografia, como revelou uma reportagem do jornal O Globo. Cientes das imprecises na correo das redaes do Enem, sempre alvo de polmica, dois estudantes com larga experincia no exame e j na universidade fizeram a prova s para testar sua convico de que a coisa no  para valer. Aluno de medicina, Fernando Maioto Jnior, de So Jos do Rio Preto, soltou no meio do texto um trecho do hino de seu time do corao, o Palmeiras. O mineiro Carlos Guilherme Ferreira, que cursa engenharia civil, despejou no papel uma receita  isso mesmo, uma receita  de Miojo. O tema proposto? "O movimento imigratrio para o Brasil no sculo XXI". Nenhum deles foi eliminado  e mais: os dois tiraram notas at razoveis diante da mdia geral. "Fiquei chocado. Muitos amigos que fizeram a prova a srio se deram bem pior", diz Fernando. 
     O Ministrio da Educao limitou-se a dizer que o edital foi seguido  risca, uma vez que no prev punio ao deboche escancarado. Como se isso no fosse o bvio. No prximo exame, diz o MEC, o lembrete ser includo no rol de recomendaes aos avaliadores.  muito pouco. Alerta Cludio Cezar Henriques, professor titular de lngua portuguesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: "O Enem pratica a demagogia lingustica, que anda de mos dadas com a demagogia poltica. Na vida real, textos como os citados jamais dariam prestgio a algum, pois contm erros que a sociedade simplesmente no aceita". Se nada for feito para elevar a rgua, continuaremos a anos-luz da verdadeira excelncia.
NATHLIA BUTTI


3. IMPRENSA  ABUSOS E EQUVOCOS
O escndalo do News of the World levou parlamentares britnicos a aprovar a regulamentao de jornais e revistas. A medida interrompe 300 anos de liberdade de imprensa e vai ser aproveitada pelos liberticidas do Brasil.

     Parlamentares britnicos decidiram na semana passada que os jornais, revistas e sites de notcias do Reino Unido passaro a ser fiscalizados por um rgo externo. Esse rgo ser composto de at oito cidados comuns. Ter autoridade para exigir correes e pedidos imediatos de desculpas aos prejudicados pela divulgao de informaes incorretas. Poder aplicar multas de at 1 milho de libras quando julgar que os veculos infringiram certas regras  regras estas que sero definidas pelos prprios membros do conselho. No poder ordenar o fechamento de veculos ou a demisso de funcionrios, nem estar autorizado a praticar censura prvia. A adeso ao novo modelo ser voluntria, mas os veculos que se negarem a subscrev-lo estaro sujeitos a "punies exemplares". Com a criao do rgo regulador, o Reino Unido d um passo atrs em sua trajetria de 318 anos de ininterrupta convivncia com a plena liberdade de imprensa. 
     A deciso do Parlamento britnico  um equvoco com origem em um crime. A discusso sobre a criao de um rgo externo para regular a imprensa em substituio ao conselho autorregulador at agora existente comeou em 2011, motivada pelo escndalo que terminou com o fechamento do tabloide News of the World, de propriedade do empresrio Rupert Murdoch. Naquele ano, a polcia revelou que ao menos 4000 pessoas, entre famosos e annimos, haviam sido grampeadas a pedido de jornalistas do tabloide. Diante disso, o primeiro-ministro David Cameron ordenou que o juiz Brian Leveson produzisse um relatrio sobre as prticas da imprensa britnica. A nova regulamentao  o resultado desse estudo, feito a partir de um episdio bem menos jornalstico do que policial. Hoje, mais de 130 pessoas ligadas ao News of the World e outros tabloides esto sendo investigadas por envolvimento em alguma das etapas do processo srdido por meio do qual obtinham suas manchetes escandalosas e seus furos bombsticos. Ao menos setenta delas, incluindo Rebekah Brooks, ex-diretora executiva do grupo de Murdoch, so acusadas de interceptao de comunicaes, crime previsto na Lei de Regulao dos Poderes de Investigao. Outras sessenta pessoas sero julgadas por oferecer propina a funcionrios pblicos em troca de informaes confidenciais, crime previsto na Lei do Suborno. Essas pessoas no esto sendo processadas porque publicaram informaes incorretas ou se recusaram a corrigi-las, mas porque cometeram delitos graves  e o fato de eles terem tido origem em uma redao no lhes tira a natureza de crime comum. Se um grupo de empresrios tivesse feito algo parecido, com o objetivo de chantagear concorrentes, por exemplo, seria necessrio criar um rgo para regular a atuao da categoria? Ou bastaria usar as leis existentes para process-los e pr os culpados na cadeia? 
     O novo rgo regulador ser regido no por polticos, mas por uma Carta Rgia, a Royal Charter, assinada pela rainha e por seu conselho privado. Os termos da Carta s podero ser alterados mediante a aprovao de dois teros do Parlamento. Revistas como a Economist, porm, consideraram que, "ainda que a proposta envolva contores institucionais bizarras para distanciar a regulamentao da imprensa do governo, ela levanta o espectro da regulamentao estatal". O semanrio The Spectator, a mais antiga publicao britnica, anunciou que optar pela desobedincia civil se a proposta for adiante. O The Times protestou, em editorial: "O papel da imprensa  fiscalizar o governo, no o contrrio". 
     Na semana passada, Lee C. Bollinger, presidente da Universidade Columbia, esteve no Rio para um seminrio sobre a liberdade de expresso. Ao criticar a deciso britnica, citou, como contraponto, o modelo americano: "Os Estados Unidos, liderados pela Suprema Corte, se deram conta de que, numa democracia,  preciso proteger fortemente a liberdade de expresso e de imprensa. E isso significa proteger inclusive os discursos falsos, discursos perigosos, que advogam a violncia, que zombam, criticam ou mesmo dizem coisas falsas sobre servidores pblicos. O escopo da liberdade de expresso deve ser amplo de tal modo que todos se sintam seguros ao se manifestarem publicamente sobre temas pblicos". 
     Com sua fala, Bollinger lembrou que a liberdade de pensamento e de expresso no existe apenas para as pessoas de cujos valores comungamos. Em certa medida, d-se justamente o contrrio: seus limites s so testados quando aquilo que repudiamos vem  tona. "A liberdade de expresso  a expresso da liberdade", declarou, no mesmo encontro, o ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Bruto. Ela no pode, evidentemente, servir para dar guarida ao erro, muito menos para proteger criminosos. Mas sua defesa tem de ser intransigente pelo fato de que, sem essa garantia, se emasculam as funes primordiais da imprensa: buscar a verdade e vigiar os poderosos. 
     No Brasil o governo federal tem resistido s investidas da ala radical do PT para criar uma lei de controle da imprensa. s presses dos radicais, a presidente Dilma Rousseff costuma reagir com a seguinte frase: "O nico controle da imprensa  o controle remoto". Com isso, resume o princpio elementar de que  o cidado  no momento em que decide ou no comprar uma revista, ou assistir ou no a um determinado canal de TV  quem exerce o melhor julgamento sobre os rgos de comunicao. A regulamentao dos jornais britnicos no  apenas um desservio  democracia do Reino Unido   tambm um pssimo exemplo para os pases em que a liberdade de imprensa  uma conquista ainda bem menos consolidada. 


4. AVENTURA  A VIDA A -90 GRAUS
A primeira travessia da Antrtica durante o inverno local desafia os limites do homem  sobrevivncia em temperaturas extremamente baixas.
CAROLINA MELO

     Um grupo de cinco exploradores trs ingleses, um canadense e um irlands  iniciou na quinta-feira passada uma experincia indita no estudo das regies mais frias da Terra. Eles vo cruzar a Antrtica durante os meses de inverno. Desde o fim dos anos 50, muitos pesquisadores j realizaram essa travessia, mas sempre no vero, quando as temperaturas mdias so de 30 graus negativos. A equipe que agora se lana a campo encontrar condies bem diferentes. Poder se submeter a temperaturas de at 90 graus negativos, o que exige uma srie de equipamentos desenvolvidos especialmente para a viagem (veja o quadro na pg, ao lado). Sero 4000 quilmetros sobre a neve e o gelo ao longo de seis meses, desafiando os prprios limites do homem em condies climticas to adversas. Metade da viagem ser feita sob escurido absoluta, j que o Sol no se levantar no horizonte.
     Na travessia, os exploradores faro experincias cientficas em trs principais frentes. Na primeira, vo estudar a morfologia da camada de gelo da Antrtica no inverno e medir a influncia do aquecimento global sobre ela, o que ajudar os cientistas na elaborao dos modelos climticos do planeta. Na segunda frente, vo recolher amostras de bactrias capazes de resistir a temperaturas extremamente baixas. Por fim, vo estudar a reao do prprio organismo ao frio. O grande inimigo a combater  a hipotermia. Expor-se ao frio extremo, sem proteo adequada, pode causar parada cardiorrespiratria ou at falncia de mltiplos rgos. 
     A travessia invernal da Antrtica comeou a ser planejada h cinco anos pelo ingls Ranulph Fiennes, de 68 anos, um dos maiores exploradores do mundo  o primeiro a atravessar a Antrtica a p. Fiennes era o lder do grupo, mas teve de abandonar a misso quando, durante o treinamento, num acampamento prximo ao ponto de partida da misso, teve os dedos de uma mo congelados ao tirar as luvas. Isso o desabilitou a participar da travessia. A chefia da empreitada, ento, foi entregue ao segundo integrante mais experiente do grupo. Brian Newham, que acumula 29 misses  Antrtica e ao rtico. 
     Um dos maiores perigos que esperam os exploradores da Antrtica so as fendas que se formam no gelo. "Algumas chegam a 50 metros de profundidade e podem engolir um veculo inteiro", diz o glaciologista Jefferson Cardia Simes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Dos cinco integrantes da equipe, dois tm conhecimentos slidos de mecnica e um  mdico  caso precise, ele poder transformar a mesa de refeies em uma mesa cirrgica e realizar procedimentos simples. "Assim como nas viagens espaciais, no meio da Antrtica, no inverno,  remota a possibilidade de resgate, e qualquer problema ter de ser resolvido pela prpria equipe", disse a VEJA Anton Bowring, um dos idealizadores da viagem. 
     As primeiras incurses  Antrtica ocorreram no fim no sculo XIX. Em 1912, o capito ingls Robert Falcon Scott e seu grupo chegaram ao Polo Sul certos de que eram os primeiros a conseguir a faanha. Depararam, porm, com a bandeira da Noruega fincada na neve  deixada pelo capito Roald Amundsen um ms antes. No caminho de volta, Scott e seus companheiros no resistiram ao frio e  fome e morreram. J Amundsen voltou ileso da aventura. Uma das explicaes para isso  que o meio de transporte de Scott eram pneis de carga  eles foram mortos no caminho de volta para alimentar a equipe, mas a carne no foi suficiente para sustent-la durante a jornada. J Amundsen e seus colegas viajaram com trens puxados por cachorros. Parte dos animais foi sacrificada para alimentar os ces que melhor resistiam ao frio  e estes conseguiram trazer os excursionistas de volta a salvo. Desta vez, Newham e seus companheiros tm a seu favor a tecnologia.

A ROTA PELO GELO
 Distncia a ser percorrida: 4 000 quilmetros
 Tempo de viagem: 6 meses
MDIA DE TEMPERATURA NO INVERNO
-10 a -50 ou menos

Como eles enfrentaro tanto frio
AS ROUPAS
O corpo  coberto por trs camadas de tecido
 A primeira  justa e confortvel 
 A segunda  equipada com uma bateria instalada no peito que esquenta fios de cobre ligados s luvas, s meias e ao capacete
 A terceira   prova d'gua e resistente ao vento

OS VECULOS
Duas escavadeiras, de 20 toneladas cada uma, puxam contineres que abrigam acomodaes e laboratrio
 Aquecedores evitam o congelamento do motor
 O combustvel  querosene de avio, com um aditivo que torna seu ponto de congelamento 30 graus mais baixo que o do diesel
 Quando desligadas, as escavadeiras so cobertas por uma lona especial que retm o calor dos motores

A DIETA
Quem passar o dia na neve precisar de 7500 calorias. Os que passarem o dia nas escavadeiras, de 3500
 Um ser humano, em condies normais, necessita de 1500 a 2000 calorias dirias
 O cardpio  composto de alimentos convencionais, mas desidratados, para sofrer menos os efeitos do congelamento extremo 
 A gua potvel ser obtida com o derretimento da neve

Fontes: James Waterhouse, do departamento de engenharia aeronutica da Universidade de So Paulo, em So Carlos, e Jefferson Crdia Simes, glaciologista da Universidade do Rio Grande do Sul.


5. ESPECIAL  O POVO  DO PAPA
Francisco no vai interferir na poltica da Amrica Latina, mas, para os populistas da regio, ter um "papa dos pobres" fazendo-lhes sombra  a ltima coisa que queriam. Na Argentina, Francisco j ganhou o corao das ruas. Em julho, ele vem ao Brasil para falar a milhes de jovens, no Rio de Janeiro
DIOGO SCHELP, DE BUENOS AIRES

s 3h30 da madrugada fria do dia 19, 50.000 argentinos aguardavam na Praa de Maio, em Buenos Aires, a missa de incio do pontificado de seu antigo cardeal Jorge Mrio Bergoglio, que seria transmitida em dois teles instalados em frente  catedral portenha, quando ouviram uma saudao inesperada vinda dos alto-falantes. "Al?" Pega de surpresa, a multido, em sua maior parte posicionada de costas para a Casa Rosada, sede do governo argentino, olhou para o cu, como se a voz viesse do Alm. Quem lhes falava era o prprio papa Francisco, por telefone, de Roma. Pediu que rezassem por ele e deu um conselho: "Deixem de lado a inveja e no falem mal de ningum". A segunda parte da frase veio na forma de uma gria argentina que, na traduo literal,  bem mais contundente: "No le saquen el cuero a nadie " ("no arranquem o couro de ningum", em portugus). Algumas horas depois, j de posse do anel do pescador, do plio papal e do livro do Evangelho, o pontfice nascido no bairro de Flores, na capital argentina, repetiu a mensagem em sua homilia, assistida por 31 chefes de estado e pelos 230.000 fiis reunidos na Praa de So Pedro. Por ironia do acaso  ou por puro maquiavelismo do cinegrafista , no instante em que Francisco afirmou que "o dio, a inveja e a soberba sujam a vida", a TV oficial do Vaticano focou as feies aparvalhadas da presidente Cristina Kirchner. 
     Para nenhum governante da Amrica Latina com tentaes populistas a existncia de um papa genuinamente popular, avesso a demagogias, e ainda por cima argentino, seria motivo para comemoraes. O vis paternalista dos governos da Argentina, do Equador, da Venezuela, da Bolvia e, cada vez mais, do Brasil sobrevive apenas se tiver exclusividade no papel de representante do povo. Ter de dividir essa funo com algum que lidera a religio de 483 milhes de latino-americanos, que telefona no meio da noite para os fiis e que at poucas semanas atrs era frequentador assduo das villas misrias, as favelas argentinas,  um grande incmodo poltico. Mas, se havia algum com dio, inveja ou soberba ferida por estar na fila do beija-mo do papa, sem dvida era Cristina, que at duas semanas atrs tratava Bergoglio como inimigo poltico. Recentemente, segundo relatou a VEJA um ex-candidato presidencial, Bergoglio recebeu em seu escritrio na arquidiocese um pequeno grupo de polticos de oposio. Durante a conversa, o cardeal aumentou o volume de um rdio no canto da sala, a ponto de um dos presentes reclamar que no conseguia escutar direito o que os outros diziam. O clrigo explicou que o governo tinha equipamentos de escuta capazes de captar o que se falava em seu escritrio. De certa forma, portanto, o cardeal era mesmo adversrio do kirchnerismo, mas por culpa da prpria Cristina. Bergoglio fazia, sim, crticas ao seu governo, mas sempre de maneira respeitosa e aberta ao dilogo. "Bergoglio dedicava seus dias a falar com as pessoas, a fazer contatos. Na Argentina, isso se tornou uma exceo, pois no pas os oponentes polticos no se falam", diz o historiador Lus Alberto Romero. Bergoglio pediu catorze audincias na Casa Rosada, situada a apenas 230 metros da catedral onde ele comandava suas missas, mas Cristina Kirchner recusou todas. Em contraste, a "rainha", como  chamada pelos polticos de oposio, foi a primeira chefe de estado a ser recebida por Francisco, com direito a almoo privado e troca de presentes. 
     Cristina Kirchner deu ao papa um jogo de mate. A aluso bvia a uma tradio nacional que une a ambos foi feita sob medida para explorar politicamente o encontro. No dia seguinte, as ruas da capital estavam tomadas por um anncio publicitrio que consiste em uma foto das mos de Cristina entregando o presente a Francisco. Acima da foto, os dizeres: "Compartilhamos esperanas". De todos os cartazes de comemorao que se espalharam pela cidade aps a escolha do papa, este e outro, que traz a frase "Francisco, Argentino e Peronista", so os que sobressaem. So, tambm, os que mais atestam o contorcionismo retrico que o kirchnerismo se viu obrigado a fazer, recorrendo ao orgulho nacional para fingir que sempre esteve do lado de Bergoglio. A piada corrente em Buenos Aires reza que, se Jesus Cristo fez o milagre da multiplicao dos pes, o papa Francisco conseguiu o milagre da multiplicao dos sapos... que Cristina e seus seguidores tiveram de engolir com a ascenso de Bergoglio ao Trono de Pedro. Dizer que um argentino  peronista  o mesmo que afirmar que gosta de futebol sem revelar seu time de corao. O kirchnerismo do ex-presidente Nstor Kirchner, transubstanciado no cristinismo de sua sucessora e mulher, Cristina,  apenas uma das correntes peronistas, e certamente no a de Bergoglio. O ncleo duro do cristinismo  composto da classe mdia, principalmente jovens comunistas e universitrios. No pertencem  base poltica do peronismo, tradicionalmente formada pelos trabalhadores e pelos sindicatos. Os cristinistas so avessos  Igreja e gostam de rock, enquanto a massa peronista ouve cumbia e  muito religiosa. "Bergoglio nunca foi benquisto no governo Kirchner", admitiu a VEJA Horacio Gonzlez, diretor da Biblioteca Nacional e um dos principais idelogos do kirchnerismo. 
     Cristina Kirchner, a rigor, no teria motivos para sofrer tanto por ter de se reconciliar com um antigo adversrio, algo perfeitamente normal no peronismo clssico, afeito s alianas polticas por convenincia. At porque, a no ser por uma pequena parcela dos cidados que acompanha pelos jornais os detalhes das intrigas palacianas, poucos de seus eleitores sabem que havia uma rusga entre ela e o cardeal. O problema para Cristina  outro, mais profundo e duradouro. "Com a nomeao de Bergoglio, o governo se ver obrigado a revitalizar seu discurso social para fazer frente  disputa de quem fala em nome dos pobres, a Igreja ou Cristina", diz o historiador argentino Fernando Devoto. No seria necessrio pensar em disputa no fosse o vis populista do governo argentino. E, como o populismo na Amrica Latina sempre esteve ancorado no catolicismo,  natural que o papa Francisco, com seu discurso a favor dos pobres, ponha os governantes personalistas da regio  sua sombra, sem fazer esforo. O primeiro teste desse poder ocorrer na Jornada Mundial da Juventude, que reunir 3 milhes de catlicos no Rio de Janeiro, em julho. Francisco estar l. "Sua visita ao Brasil vai causar grande impacto", disse a VEJA Daniel Scioli, governador de Buenos Aires. Amigo de Bergoglio, ele pretende lanar-se  Presidncia nas prximas eleies, apesar dos planos de sua antiga aliada, Cristina Kirchner, de aprovar a reeleio indefinida no pas. O papa Francisco far bem  Amrica Latina. 

AMOR DUPLO - Csar Sosa, Limpia e o filho Javier tm uma padaria em um bairro pobre na provncia de Buenos Aires. Eles recebem benefcios do governo e no acham que Cristina e Bergoglio sejam adversrios. "Ele defendia mais ajuda para os pobres, mas a presidente, infelizmente, no tem os meios para fazer tudo, diz Csar.

Os argentinos gostam mais do papa,...
POPULARIDADE (Imagem pblica boa ou muito boa, segundo os entrevistados)
FRANCISCO 65%
CRISTINA KIRCHNER 40%

... muitos acham que ele vai ser bom para o pas...
48% dizem que Francisco vai unir os argentinos
36% pensam que ele no ter nenhum impacto ou no sabem
16% afirmam que ele vai dividir ainda mais a populao

... e ruim para o governo
47% acreditam que a nomeao do novo papa  negativa para Cristina
40% dizem que  neutra ou no sabem
13% acham que  positiva

Fontes: Manegement & Fit e Poliarquia

COM REPORTAGEM DE DUDA TEIXEIRA, LEONARDO COUTINHO E NATHALIA WATKIN


6. ESPECIAL  O CONTO ARGENTINO
Cristina Kirchner faz com as estatsticas econmicas o mesmo que os seus militantes com os fatos histricos  uma manipulao grosseira da realidade. Quem sofre  o povo.
DUDA TEIXEIRA, DE BUENOS AIRES

     A Argentina  um pas onde o passado parece sempre mais auspicioso que o presente e o futuro. A falsificao da prpria histria  um trao da cultura nacional. O populista Juan Domingo Pern, que fez a desindustrializao forada do pas e o tornou dependente de importaes pagas em dlares de produtos que vo de escovas de dentes a automveis,  tido como grande inovador da economia. Da sua mulher, Evita, no basta constatar que magnetizou as massas na Argentina como poltica,  preciso acreditar que ela tambm foi uma atriz de grandes mritos. Os kirchneristas representam muito bem essa caracterstica e recorrem  manipulao do passado. A tentativa de enxertar no currculo do papa Francisco, um crtico do governo, um episdio de colaborao com a ditadura militar  s a mais recente dessas invenes (veja a reportagem na pg. 74). 
     Para esconder a runa de seu desgoverno, Cristina Kirchner recorre  fabulao do presente to intensamente quanto o faz em relao ao passado. As estatsticas econmicas oficiais viraram piada. A inflao anual oficial foi de apenas 10%. O valor real  24%, com a projeo de bater em 30% no fim de 2013. O ilusionismo kirchnerista  um desastre anunciado e um atentado  economia popular. Um argentino que acredite no governo e aceite a remunerao mdia dos investimentos em bancos, em torno de 13%, poder imaginar que est protegendo seu dinheiro da desvalorizao. Est sendo depenado pela inflao real. Ao argentino est vedada at mesmo a fuga para o mercado imobilirio, opo preferencial em momentos de incerteza, j que as transaes eram quase todas feitas em dlar. A exemplo do que ocorre em Cuba, na Argentina ter dlar  impatritico. Agora, a compra e a venda de imveis tm de ser, por fora de lei, em pesos. Como a maioria dos argentinos  escolados por dcadas de regras econmicas volteis  tem poupana em dlares, ser obrigado a convert-los em pesos pelo cmbio oficial irreal equivale a ser roubado pelo governo. Por causa dessa imposio, a oferta supera em muito a procura e o valor das propriedades na Argentina est encolhendo. No ltimo ano, a queda foi de 30%. 
     Como governos autoritrios no precisam demonstrar coerncia, a Argentina oficial sem inflao precisou recorrer ao congelamento de preos. A realidade  outra. E a realidade econmica morde. Obviamente, como se aprende no 1 ano da faculdade de economia, quando se congelam preos nos supermercados o consumo aumenta e, por uma incontornvel lei econmica, pressiona a alta dos preos.  o que ocorre agora na Argentina. O governo reagiu com a pattica tentativa do secretrio de Comrcio Interior, Guillermo Moreno, de proibir que os supermercados publiquem ofertas nos jornais. Moreno jogou mais gasolina na fogueira. "Ficou mais difcil para os consumidores comparar preos. Como resultado, a concorrncia entre os supermercados diminuiu, o que estimula a inflao", diz o economista Juan Luis Bour, da Fundao de Investigaes Econmicas Latino-americanas (Fiel), em Buenos Aires. 
     Infatigveis na tentativa de reescrever leis econmicas elementares, os kirchneristas partiram agora para o congelamento dos salrios. Quando os sindicalistas pediram um dissdio  altura da inflao real, de 24%, a resposta foi que seria de 20%, porque os preos dos produtos ficariam estveis por decreto. Vai ser engraado acompanhar essa tragicomdia de fora (para os argentinos, vai ser s tragdia). Obviamente, os preos no vo obedecer aos decretos oficiais. O encarecimento dos produtos vai ser mais rpido do que os reajustes de salrios, e as lideranas sindicais pelegas tero de decidir se defendem os interesses dos trabalhadores ou continuam bovinamente servindo ao governo. A tenso social ser inevitvel. 
     Nessas horas, ningum se lembra que o mito Pern plantou as sementes da desgraa atual ao impor a desindustrializao. A Argentina era grande exportadora de produtos primrios  petrleo, gros e carnes , e o Tesouro Nacional ficava empanturrado de dlares que precisavam ser convertidos em pesos. Para no fazer disparar a inflao, a tosca sada encontrada foi queimar dlares, incentivando a importao de todos os produtos industrializados. No tempo de Pern, montar uma fbrica era impatritico, quase um crime. Os equvocos do passado esto sendo potencializados pela cegueira atual da era Kirchner. Quem tem juzo est caindo fora. A mineradora brasileira Vale acaba de cancelar um investimento bilionrio que faria na Argentina.

A ECONOMIA PINOQUIO
A discrepncia entre as estatsticas mentirosas divulgadas pelo governo da Argentina e os dados reais, medidos pelas consultorias privadas.
INFLAO (em 2012)
Oficial: 10%
Real: 24%

POBREZA (em porcentagem da populao)
Oficial: 6,5%
Real: 22%

POBREZA EXTREMA (INDIGNCIA) (em porcentagem da populao)
Oficial: 1,7%
Real: 6%

CRESCIMENTO DO PIB (Em 2012)
Oficial: 1,9%
Real: 0,7%

RESERVAS INTERNACIONAIS (em dlares)
Oficial: 41 bilhes
Real: 30 bilhes

Fonte: Fundao de Investigaes Econmicas Latino-americanas (Fiel)


7. ESPECIAL  A IMITAO DE CRISTO
Fracassaram as tentativas de envolver Bergoglio em atos reprovveis durante a ditadura argentina. Ele agiu como ensina o Evangelho, ajudando e consolando os sofredores.
NATHALIA WATKINS, DE BUENOS AIRES

     Horacio Verbitsky  o nico acusador do jesuta Jorge Mrio Bergoglio, o papa Francisco. Verbitsky  um personagem sinistro. Seu codinome nos tempos em que pertencia ao grupo de esquerda radical Montoneros era "El Perro". "O Cachorro". Ele foi autor de um atentado a bomba contra uma instalao militar na Avenida Paseo Clon, em Buenos Aires, que deixou um morto e dezenas de feridos, entre eles quatro coronis do estado-maior do Exrcito. Foi uma merecida represlia contra integrantes de rgos de represso da ditadura argentina? No. Nada disso. A Argentina vivia sob o regime democrtico da presidente Estela Martnez de Pern. Esse atentado e outros de que Verbitsky participou mataram pessoas inocentes com o objetivo de "acirrar a contradio", dando forca ao grupo mais radical de militares para, assim, apressar o golpe contra a democracia. Na cabea transtornada de Verbitsky, a democracia atrapalhava a revoluo comunista. Lutar contra um regime ditatorial daria a ele e seu grupo o pretexto de estar lutando por uma causa justa  quando o que visavam mesmo era substituir uma ditadura de direita por outra, de esquerda. Esse  o acusador do papa. 
     Verbitsky  empregado do governo de Cristina Kirchner, a quem assessora em assuntos de propaganda poltica. Ele foi escalado para tisnar a imagem do papa argentino, uma pedra no sapato do regime, pois na hagiolatria populista s tem lugar para um santo  e esse lugar j est ocupado por Cristina. Verbitsky  o grande incentivador da supresso da liberdade de expresso no pas  menos,  claro, do seu jornal, o Pagina 12, do qual emanaram as primeiras inverdades venenosas contra o jesuta que se tornara papa. 
     Em resumo, Verbitsky dizia ter depoimentos e quarenta documentos que comprovariam sua tese segundo a qual Bergoglio, quando era provincial dos jesutas na Argentina, entregou aos militares dois padres de sua ordem religiosa, que foram presos, torturados e soltos depois de seis meses. Os padres presos eram Orlando Yorio e Francisco Jalics. Yorio morreu em 2000. Jalics vive e veio a pblico para informar: "O fato  este: 'Orlando Yorio e eu no fomos denunciados por Bergoglio'". Em socorro de Bergoglio vieram tambm outros insuspeitos e profundos conhecedores do envolvimento da cpula da Igreja argentina com a ditadura (veja a reportagem seguinte). So eles Alicia Oliveira, juza destituda pelos militares e ex-secretria dos Direitos Humanos de Nstor Kirchner, e Adolfo Prez Esquivel, Prmio Nobel da Paz e ex-preso poltico. 
     Feitas as investigaes e ouvidos todos os personagens que poderiam confirmar os ataques do agregado do governo ao papa, resulta que os depoimentos no passam de malentendidos e os documentos condenatrios no existem. Um deles, em torno do qual Verbitsky e sua turma fazem grande alarde,  a anotao datilografada de um funcionrio do Ministrio das Relaes Exteriores em que ele registra o pedido de expedio de passaporte para o padre Jalics, que tinha dupla cidadania, argentina e hngara. Atribuindo as informaes a Bergoglio, o funcionrio anotou que Jalics ficara meses preso acusado de trabalhar com outros religiosos envolvidos na luta armada. As anotaes terminam com a observao atribuda a Bergoglio de que o passaporte "no deveria ser emitido". Os detratores do papa falsificam a histria. Eles dizem que Bergoglio escreveu uma carta, quando tudo que se tem so as anotaes do burocrata do Ministrio das Relaes Exteriores. Mas para que Jalics queria um passaporte? Para fugir? No. Ele j linha sado de Buenos Aires, vivia na Alemanha e queria voltar  Argentina, o que evidentemente acarretaria um grande risco para ele. Se recomendou mesmo que o passaporte no fosse emitido, o que  discutvel, Bergoglio fez um favor ao padre. 
     Neste trecho de um depoimento que Bergoglio prestou como testemunha de crimes da ditadura, ele relatou uma de suas tentativas de conseguir a libertao dos padres jesutas em duas audincias com Emlio Massera, almirante e membro da junta militar: 
     " Na primeira (reunio), Massera me disse que ia averiguar. Afirmei que os padres no estavam envolvidos em nada de errado. Ele ficou de me dar uma resposta. Como no respondeu por dois meses, pedi uma segunda reunio. 
      A segunda (reunio) foi muito ruim. No durou dez minutos. 
      O que o senhor se recorda dessa reunio? 
 Ele (Massera) me disse: 'Olha, o que acontece  que j falei com Tortolo (monsenhor Adolfo Tortolo)'. 
 Eu disse: Melhor seria dizer monsenhor Tortolo, no? Ele concordou. Eu disse: Bom, Massera, quero que (os padres) apaream! Levantei-me e sa. 
     Os padres apareceram. Bergoglio virou papa. A ditadura acabou. Verbitsky continua delinquente.

O fato  este: Orlando Yorio e eu no fomos denunciados por Bergoglio. - FRANCISCO JALICS Padre jesuta que, junto com um colega, foi preso na ditadura.

Quando algum tinha de fugir do pas, ele (Bergoglio) sempre comparecia  despedida. - ALICIA OLIVEIRA Juza destituda pelos militares e ex-secretria dos Direitos Humanos de Nstor Kirchner.

O papa no teve nada a ver com a ditadura. No foi cmplice da ditadura, no colaborou com ela. Preferiu uma diplomacia silenciosa. - ADOLFO PEREZ ESQUIVEL Prmio Nobel da Paz e ex-preso poltico.


8. ESPECIAL  A CRUZ E A ESPADA NA GUERRA SUJA
O papa teve atuao crist exemplar, mas parte da cpula da Igreja Catlica na Argentina e os capeles militares foram ativos aliados dos ditadores em nome do "nacional-catolicismo".
NATHALIA WATKINS E DUDA TEIXEIRA, DE BUENOS AIRES

     As maiores atrocidades da histria humana foram cometidas em nome de ideais superiores e promessas de um mundo melhor. Na ditadura argentina, os crimes eram justificados pela luta contra o comunismo ateu. Boa parte da cpula da Igreja deu conforto espiritual e sustentao filosfica aos assassinos e torturadores do regime. Entre o ano em que os militares tomaram o poder, 1976, e a restaurao da democracia, em 1983, 30.000 homens, mulheres, crianas e idosos foram mortos por pegar em armas contra o regime ou apenas se opor publicamente a ele. No Brasil, pas com uma populao equivalente a quatro vezes a da argentina, o nmero de mortos e desaparecidos no governo militar  de cerca de 300. 
     Os golpistas argentinos diziam estar lutando a "III Guerra Mundial" e tudo era permitido para derrotar o inimigo. Tudo mesmo. Os militares cometeram aberraes morais que s rivalizam em crueldade com relatos da Antiguidade sobre povos brbaros. Presas que davam  luz nos centros de tortura tiveram seus bebs roubados para que fossem criados por famlias de militares e amigos do regime. Militantes detidos sob a guarda do governo foram executados, primeiro com tiros e depois, como disse um capelo militar, "de forma crist e indolor", drogados e jogados nus de helicptero no mar. O presidente da junta militar, Jorge Videla, que governou o pas em seu perodo mais sangrento, deixou, em uma entrevista dada h trs anos, seu testemunho do papel de parte do clero: "Criou-se uma situao muito dolorosa e a Igreja nos ajudou a lidar com ela". 
     As relaes entre Igreja e estado na Argentina so peculiares e ajudam a entender o papel oficial dos bispos durante a ditadura. Em muitos aspectos, o clero e a burocracia governamental se confundem  situao que no Brasil foi abolida com a proclamao da Repblica, em 1889. Os salrios dos religiosos so pagos pelo estado argentino. Os cerca de 130 bispos e 5000 padres custam aos cofres pblicos o equivalente a 100 milhes de dlares anuais. Aps a primeira gesto de Juan Domingo Pern, na dcada de 60, o governo argentino criou o bispado castrense. Unidos pela lei, os religiosos e o estado argentino alimentaram durante dcadas o sonho de um pas em que a religio teria tambm uma misso cvica. Era o "nacional-catolicismo". Assim que foi ficando bvia a face assassina do regime, o clero se dividiu. Alguns bispos, especialmente do interior do pas, tornaram-se adversrios do regime, cujos crimes eles denunciavam. Muitos padres se envolveram diretamente na luta armada e foram combatidos. Dois bispos de oposio tiveram morte igualmente suspeita em acidentes automobilsticos. Entre os que pegaram em armas e outros, cerca de 150 padres foram mortos durante a ditadura argentina. Um deles, o padre franciscano Carlos de Dios Murias, foi torturado e morto em 1976. Murias era militante, mas no aderiu aos grupos armados. O papa Francisco planeja fazer de Murias o primeiro beato de seu pontificado. 
     No outro extremo, as convices tambm se exacerbavam. O bispo Victorio Bonamn, que elogiava os militares por estarem "purificando o pas", foi chamado de "o profeta do genocdio" pelo advogado argentino Emilio Mignone, autor do livro Igreja e Ditadura. Mignone, que morreu h quinze anos, era advogado com um cargo no Ministrio de Justia e catlico praticante. Seu livro narra sua triste e v peregrinao pelos labirintos oficiais do regime em busca de informaes sobre Mnica, sua filha sequestrada em casa pelos militares e dada como desaparecida. Mignone fez sua via-sacra paterna tambm junto aos bispos, que ele julgava capazes de elevar a voz contra o regime e obter informaes sobre o paradeiro de Mnica. Sua decepo foi total. Mignone foi aos poucos descobrindo que a hierarquia da Igreja argentina no moveria uma palha  por convico, medo ou ambos  em favor dos presos. Sua mais direta condenao foi feita ao padre Emilio Grasselli, que fora escalado para ouvir os pedidos de ajuda dos parentes dos desaparecidos. Ele juntou cerca de 2500 fichas. Mignone afirmou que o padre Grasselli nada mais era do que um agente do governo comissionado para dar falsas esperanas s famlias e, assim, acalm-las. Ele teria dito a um grupo de parentes desesperados que o general Videla no queria perder aquelas "inteligncias" e por isso internou os jovens em "campos de recuperao". Com a ajuda de "psiclogos e socilogos", os jovens conseguiriam se livrar das ideologias malignas e voltar ao convvio da sociedade. "Os irrecuperveis", teria dito Grasselli segundo Mignone, "teriam a ajuda de uma mo caridosa que lhes aplicaria uma injeo e eles dormiriam para sempre." 
     VEJA encontrou o padre Grasselli, hoje com 81 anos, antes de uma missa na Igreja Nossa Senhora de Lujn, na semana passada, em Buenos Aires. Grasselli negou que tenha dito essas palavras. "Tudo o que eu fazia era enviar os pedidos de informaes ao monsenhor Tortolo, que tinha contato com os militares. S uma vez eles nos responderam." 
 evidente o contraste com a Igreja brasileira. Aqui os religiosos seguiram a percepo da classe mdia, que de incio apoiou fortemente o golpe de 1964, mas foi se distanciando do regime quando comearam as denncias de torturas e mortes. Nos anos 70 e 80, a Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com as divises de sempre, tornou-se uma caixa de ressonncia em favor da redemocratizao do pas. Se teve um bispo como dom Geraldo de Proena Sigaud, que justificava a tortura com a frase "no se arrancam confisses com bombons", o Brasil teve figuras de proa na defesa dos direitos humanos, como os cardeais Eugnio Sales e Evaristo Arns. Dom Eugnio visitava presos e escondia militantes procurados em imveis da Igreja. O cardeal Arns fez um apelo  cpula da Igreja argentina para que obedecesse aos mandamentos cristos. Recebeu uma resposta rspida de Tortolo, cardeal-arcebispo de Buenos Aires: "No se intrometa na Igreja argentina". Arns rebateu: "Por que no, se vocs j se intrometeram no Evangelho?".

O PADRE DAS FICHAS
Emlio Grasselli tem 81 anos e ainda celebra na Igreja Nossa Senhora de Lujn, em Buenos Aires. Na ditadura, Grasselli montou um arquivo com 2500 fichas de militantes desaparecidos. O advogado Emilio Mignone, cuja filha foi assassinada pelos militares, contou que Grasselli se limitava a dar falsas esperanas aos parentes dos desaparecidos. Segundo Mignone, o padre dizia que "os jovens estavam em campos de recuperao criados por Videla onde estariam sendo atendidos por psiclogos e socilogos, e s os irrecuperveis poderiam receber uma injeo e dormir para sempre". Grasselli nega a acusao: "Se eu falasse algo contra os militares, eles fechariam minha igreja. Havia muito nervosismo.

O PRIMEIRO BEATO
Um dos padres mortos pela ditadura argentina foi o franciscano Carlos de Dios Murias, em 1976. Nascido em Crdoba, Murias era do Movimento dos Padres para o Terceiro Mundo e adepto da Teologia da Libertao, o bizarro sincretismo marxista-cristo. Murias nunca se envolveu com a luta armada, mas foi morto mesmo assim. O papa Francisco tem planos de fazer dele o primeiro beato de seu pontificado.

ALIADOS - O ditador Jorge Videla, de bigode, e o bispo castrense monsenhor Tortolo, no funeral de um policial, em 1976: no mesmo ano, ele disse no haver provas das torturas e mortes no pas.

ANJO DA GUARDA
Dom Eugnio Sales, no banco da frente, escolta uma famlia de chilenos que partiu para o exlio na Europa, em 1979. Sales, que morreu no ano passado, participava de reunies com os militares em que criticava as violaes de direitos humanos e pedia que fossem libertados presos polticos.

MISSA AUDAZ
Dom Paulo Evaristo Arns participa em 1975, em So Paulo, de uma celebrao ecumnica com o rabino Henry Sobel, por ocasio da morte do jornalista Vladimir Herzog, da TV Cultura, nos pores da ditadura brasileira. "Na Argentina, os bispos nunca poderiam ter feito algo assim, defendendo os direitos humanos abertamente, porque a nossa ditadura no teve limites ", diz o historiador Jos Zanca.

COM REPORTAGEM DE LEONARDO COUTINHO


9. FILANTROPIA  A VISO DE MUNDO DE CLINTON
Em qualquer tempo e em qualquer pas, a poltica  territrio dos que praticam a diviso, mas o futuro pertence aos que praticam a cooperao

O ex-presidente americano prega que a cooperao vai triunfar sobre as rivalidades polticas, econmicas e tnicas na soluo dos problemas globais.
CAROLINA MELO

     Quando deixou a Presidncia dos Estados Unidos, em 2001, aps oito anos no cargo, e se mudou para uma casa nos arredores de Nova York, Bill Clinton brincou com um grupo de jornalistas: "Agora sou como a maioria dos americanos. Acordo, dou uma olhada nos jornais e tomo caf da manha". Embora a declarao fosse verdadeira no mbito das situaes comezinhas, nos anos seguintes Clinton se dedicou  atividade mais comum aos ex-presidentes daquele pas  rodar o mundo dando palestras sobre os temas mais relevantes do cenrio internacional. Logo, porm, Clinton deu um salto  frente de seus pares que ocuparam o cargo de homem mais poderoso do mundo, um salto que hoje o qualifica como o melhor dos ex-presidentes americanos vivos. 
     O grande salto de Clinton foi fundar, em 2005, a Clinton Global Initiative, uma ONG de alcance internacional que se dedica a encontrar solues para grandes problemas mundiais, desde a desigualdade econmica at as mudanas climticas, da reconstruo de regies arrasadas por fenmenos naturais  obesidade infantil. A entidade pratica um modelo de filantropia que s  possvel tendo como base o carisma e a rede de simpatizantes que Clinton reuniu em seus anos de governo  do qual saiu com notveis 65% de aprovao popular. 
     A Clinton Global Initiative, ao contrrio de outras entidades filantrpicas notveis, como a de Bill e Melinda Gates, no distribui verbas. Sua estratgia funciona assim: todos os anos, em setembro, Clinton promove em Nova York um encontro de lderes globais, empresrios, CEOs de grandes empresas e notveis das mais diversas reas. Aps discutirem as melhores solues para os problemas colocados em pauta, os participantes se comprometem a investir verbas  ou conhecimento  para solucion-los. Clinton acredita que s com a cooperao entre governos. ONGs e iniciativa privada se poder fazer frente aos grandes desafios do mundo de hoje (veja abaixo entrevista exclusiva do ex-presidente a VEJA). 
     Nesses oito anos de existncia da Clinton Global Initiative, j passaram pelos encontros 150 presidentes de pases, vinte ganhadores do Prmio Nobel, centenas de empresrios e CEOs e diretores de ONGs, alm de celebridades endinheiradas  como Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Mick Jagger  dispostas a abrir o cofre em prol de causas com que simpatizem. As doaes com as quais os chefes de estado, empresas ou pessoas fsicas se comprometem so aplicadas diretamente nos respectivos projetos. 
     Os encontros promovidos por Clinton j estabeleceram 2300 compromissos de investimento em projetos beneficentes em 180 pases. Quando estiverem inteiramente implementados, esses projetos tero consumido 73 bilhes de dlares. Os projetos nascidos nos encontros da Clinton Global Initiative j beneficiaram 400 milhes de pessoas. Muitas outras devero ser beneficiadas indiretamente por meio de uma das prioridades da ONG  a melhoria das condies ambientais nas maiores metrpoles do planeta. Um exemplo vistoso dessa frente de atuao  a reforma do Empire State Building, um dos prdios-smbolo de Nova York, inaugurado em 1931. Em 2009, a Clinton Climate Initiative, juntamente com parceiros, iniciou um projeto de ampla modernizao no Empire State que tornou quatro vezes mais eficiente o isolamento trmico das 6514 janelas duplas e dos 26.056 painis de vidro do edifcio. O controle de temperatura e os elevadores receberam sistemas mais eficazes. Ao todo, o projeto reduziu o uso de energia do Empire State em 38%, o que significa uma reduo de 4,4 milhes de dlares por ano nas contas de energia de seus ocupantes. A reduo tambm evitar que 105.000 toneladas de emisses de gases do efeito estufa sejam produzidas nos prximos quinze anos. Isso equivale  poluio produzida em um ano por 22.000 carros. 
     Na frente de auxlio s populaes mais pobres do globo, a ONG de Clinton tem ampla atuao em pases como o Haiti, onde foi fundado um brao especial da entidade, que arrecadou 16,4 milhes de dlares para auxlio imediato s vtimas do terremoto. Posteriormente, foi investido 1,25 milho de dlares para subsidiar os estudos de 400.000 crianas. "Com a unio de foras, temos mais poder do que nunca para construir um mundo de valores e oportunidades compartilhadas", diz Clinton. As aes da ONG do ex-presidente mostram que essa teoria tem dado certo na prtica.

A ESTRATGIA  JUNTAR FORAS
H oito anos Clinton fundou a Clinton Global Initiative, que promove encontros anuais entre governos, empresas privadas e ONGs. Em entrevista a VEJA, ele explica por que avalia que a unio entre os trs setores  o melhor caminho para enfrentar questes como a desigualdade social e as mazelas ambientais.

Como o senhor v o papel dos cidados diante dos desafios do sculo XXI? 
Vivemos um perodo da histria indito em termos de interdependncia entre as naes. A riqueza e o talento, hoje, cruzam fronteiras rapidamente, numa grande rede internacional, mas o mesmo acontece com as foras negativas. A crise financeira que comeou nos Estados Unidos e varreu o globo provou como as condies sociais e econmicas das naes esto interligadas. No podemos mais ignorar o que acontece em outros pases. A boa notcia  que temos mais poder do que nunca para construir um mundo de valores e oportunidades compartilhadas, mas, para obter sucesso no sculo XXI, trs setores da sociedade  governo, iniciativa privada e organizaes no governamentais, as ONGs  precisam trabalhar juntos. Isso vale para os pases ricos, como os Estados Unidos, para os pobres, como o Haiti, ou para aqueles em rpido desenvolvimento, como o Brasil. E o papel das ONGs, grupos de cidados que trabalham juntos em prol do bem comum, est se tornando cada vez mais relevante. Os Estados Unidos sempre tiveram instituies no governamentais fortes. Um dos fundadores da Repblica americana, Benjamin Franklin, criou em 1736 o que pode ser considerada a primeira ONG da histria, o Corpo de Bombeiros de Filadlfia, composto exclusivamente de voluntrios. No havia alternativa naquele tempo porque os impostos recolhidos pela prefeitura no eram suficientes para bancar um corpo de bombeiros e nenhuma companhia privada teria lucro com um projeto desse tipo. As ONGs so instituies nicas: por serem formadas por cidados, no dependem de cargos polticos e, portanto, tm mais liberdade para experimentar novas ideias. Ao contrrio das empresas privadas, no precisam produzir lucro para satisfazer os acionistas. Devem prestar contas de suas aes e ser cuidadosas com seus oramentos, mas, se algo no d certo, podem mais facilmente mudar de rumo e tentar uma estratgia diferente. Por isso, as ONGs tm hoje um papel mais significativo do que nunca. 

O que faz com que algumas pessoas sejam mais propensas do que outras a se tornar voluntrias e doar tempo e dinheiro? 
J pensei muito sobre isso. Parece-me que as pessoas doam por uma combinao de fatores, com base no que pensam do mundo e no que pensam de si mesmas. Algumas pessoas doam porque acham que o gesto de doar lhes d mais satisfao e recompensa do que gastar mais dinheiro em bens materiais e mais tempo em atividades de lazer ou no trabalho. Outras doam porque se sentem moralmente obrigadas a faz-lo, amparadas em convices ticas ou religiosas. E h as que doam porque algum que elas conhecem e respeitam lhes pediu que o fizessem, ou porque acham que, doando, proporcionaro s nossas crianas um futuro melhor. Os motivos opostos explicam por que as pessoas se recusam a doar. Muitas no acreditam que a doao possa fazer grande diferena, seja porque no podem doar muito, seja porque esto convencidas de que os esforos para mudar as condies de vida de outras pessoas so inteis. No se sentem moralmente obrigadas a doar e talvez ningum lhes tenha pedido para faz-lo. E acreditam que vo aproveitar melhor a vida se guardarem seu dinheiro e seu tempo para si prprias e sua famlia. Muita gente, em meio ao dia a dia do trabalho e da vida familiar, no sabe como doar tempo e dinheiro de forma eficaz. Nesse caso, deixa de doar, embora se sinta frustrada com isso. A tecnologia est fazendo maravilhas para resolver esse tipo de situao. Ela no apenas torna mais fcil doar como transforma um grande nmero de pequenas doaes numa doao de grande porte. Quando o tsunami devastou o Sudeste Asitico, gente do mundo inteiro doou bilhes de dlares, grande parte pela internet. Nos ltimos tempos, doar uma pequena quantia fixa por meio de mensagem de texto facilitou ainda mais o processo. Foi o que aconteceu aps o terremoto que atingiu o Haiti, h trs anos. A escolha de doar tempo e dinheiro  pessoal, mas quanto mais cidados tentam fazer a diferena mais perto chegamos de vencer nossos grandes desafios. 

O senhor daria algum conselho aos brasileiros acerca de como enfrentar o sculo XXI? 
Em primeiro lugar, amo o Brasil. J visitei o pas dez vezes, e em dezembro vamos promover no Rio de Janeiro nossa primeira conferncia Clinton Global Initiative na Amrica Latina. No ano passado, tive o prazer de dar uma palestra na Universidade de Fortaleza, no Cear, e fiquei mais convencido do que nunca de que o povo brasileiro tem a noo exata de como criar um mundo de oportunidades e responsabilidades compartilhadas. Digo isso porque, nesta ltima dcada, o Brasil foi um dos pouqussimos pases a registrar ao mesmo tempo um crescimento slido e uma queda na pobreza e na desigualdade social. Isso no aconteceu nos Estados Unidos, onde, no mesmo perodo, 90% dos ganhos econmicos beneficiaram 10% da populao. Desses 90%, 43% foram para 1% da populao, e a pobreza aumentou no pas. Um dos principais motivos pelos quais o Brasil continuou a crescer durante a recente crise econmica  que combateu o problema da desigualdade. Darei outro exemplo. Quando estive em Manaus no Frum Mundial de Sustentabilidade, em 2011, havia executivos de grandes companhias de petrleo, de eletricidade e de outros setores, polticos do Partido Verde e de grupos ambientalistas, alm de representantes das tribos indgenas e de entidades de defesa da floresta. Ao contrrio do que aconteceria nos Estados Unidos, onde, num evento desse tipo, todos estariam levantando verbas para produzir comerciais de TV atacando uns aos outros, os participantes do frum de Manaus estavam reunidos calmamente em torno de mesas, conversando respeitosamente, porque sabiam que no havia respostas fceis. Eles entenderam que, para construir um pas de prosperidade e responsabilidade compartilhadas, teriam de enfrentar juntos as questes difceis e descobrir novas formas de cooperao mtua. Meu conselho, portanto,  prosseguir desta forma: manter todos nas mesas  empresrios, governo e cidados , descobrindo maneiras criativas de trabalhar juntos.  bom lembrar que, em qualquer tempo e em qualquer pas, a poltica  territrio dos que praticam a diviso, mas o futuro pertence aos que praticam a cooperao.


10. GATRONOMIA  ANCESTRAL DA MODA
O freekeh, um tipo de trigo apreciado pelos rabes h mais de 4000 anos,  a nova mania dos gourmets moderninhos dos Estados Unidos e da Europa.
TNIA NOGUEIRA

     A novidade obrigatria nos restaurantes de Londres, Nova York e Sydney ironicamente nada mais  que um tipo especial de trigo, cereal cujo cultivo nasceu junto com o processo civilizatrio, h cerca de 10.000 anos. Por ter garantido a sobrevivncia de grandes grupos com suas valiosas propriedades nutritivas, o trigo permitiu o primeiro salto populacional expressivo da humanidade  papel vital que ficou registrado em narrativas ancestrais, de Homero ao Antigo Testamento, e est sobejamente ilustrado em murais e frisos de povos antigos, como os egpcios. Com seu apetite insacivel por novidades, os foodies (como se autointitulam os gourmets ps-modernos) elegeram como novo objeto de desejo o milenar trigo freekeh, um ingrediente tradicional da cozinha rabe que costumava ocupar no mais que um pequeno espao nas prateleiras de mercados tnicos e lojas de produtos naturais  at que chefs modernosos como o ingls Jamie Oliver puseram os olhos sobre ele e celebridades como a apresentadora Oprah Winfrey declararam seu amor por esse gro ancestral. O freekeh, ento, ganhou as gndolas das redes de supermercados, como o americano Whole Foods, e passou a ser chamado de "a nova quinoa"  no s por seu exotismo comparvel, mas tambm porque o gro andino perdeu um tanto de sua popularidade no mundo gourmet politicamente correto desde que, em janeiro, o jornal ingls The Guardian noticiou que os trabalhadores peruanos e bolivianos no mais podiam pr na mesa esse alimento de tradio milenar entre eles: a fama da quinoa elevou seu preo alm do poder aquisitivo deles. 
     A associao com a quinoa se deve ao fato de o freekeh, que tambm  conhecido como friki ou trigo verde, ter propriedades nutricionais prximas s do grupo dos chamados supergros (veja o quadro ao lado). "O freekeh tem um alto teor de protenas e quatro vezes mais fibras alimentares que o arroz integral", diz a nutricionista Raquel Oliveira, do restaurante Arbia, em So Paulo. " rico em propriedades prebiticas, ou seja, estimula a proliferao das bactrias boas' do sistema digestivo." Foram propriedades como essas que na ltima dcada transformaram a quinoa, um ingrediente regional, em fenmeno global. No Brasil, as classes A e B hoje j esto bastante habituadas  quinoa. Mas o freekeh ainda  conhecido quase que exclusivamente pela comunidade srio-libanesa e s aparece na mesa de uns poucos restaurantes rabes do pas. " um gro saborosssimo", diz a chef do Arbia, Leila Kuczynski. "Tem um aroma levemente defumado e se presta a ser servido como acompanhamento de diversas carnes, da mesma forma que o trigo em gro ou o arroz integral. Pode ser usado em sopas, junto a outros gros, ou cozido com legumes", ensina Leila, que identifica no freekeh aquele elemento intangvel  o sabor de infncia. "Morei no Lbano quando era criana, e me lembro dos agricultores fazendo o freekeh na aldeia onde vivi." 
     O freekeh, em geral,  trigo do tipo duro colhido verde e chamuscado para facilitar a retirada da palha. Consta que esse processo peculiar de beneficiamento surgiu por volta de 2300 a.C., na Sria: uma cidade na iminncia de ser invadida antecipou a colheita e estocou o trigo, mas este acabou sendo queimado pelos invasores. Quando eles deixaram a cidade, a populao descobriu que, esfregando a palha queimada, o gro dentro dela permanecia perfeitamente comestvel. Mais que isso, tinha um toque especial de defumado. 
     Manias gastronmicas no tm fronteiras geogrficas e, como o freekeh  moda na Europa, os brasileiros mais ligados em comida aos poucos vo se interessando pelo gro. "De uns meses para c, comearam a aparecer algumas pessoas que no so descendentes de libaneses ou srios procurando pelo freekeh", diz Fbio Pinheiro de Souza, gerente do Emprio Syrio, em So Paulo. O ingrediente comea a se fazer presente tambm em restaurantes no rabes. "Comi freekeh na Califrnia e em Nova York e gostei muito", diz a chef Carla Pernambuco, que j o serviu como prato do dia. "A quinoa tem um travo meio amargo. Acho o freekeh mais fcil de pegar por aqui." No chega a ser exerccio de futurologia: faz 100 sculos, afinal, que o trigo no para de "pegar.

FREEKEH, O SUPERGRO,...
De origem rabe, tambm chamado de trigo verde ou friki,  a semente do trigo colhida antes de amadurecer, seca ao sol e chamuscada para tirar a palha.
Como comer - Com leve aroma terroso e um toque defumado, costuma ser usado como guarnio, tal qual o arroz.
Por que comer - Tem baixo ndice glicmico  ou seja, no altera muito as taxas de acar no sangue. Por isso  considerado bom para diabticos e pessoas que querem emagrecer.

... E SEUS CONCORRENTES
QUINOA
O gro da planta de mesmo nome j era consumido nos Andes, no perodo pr-colombiano.
Como comer - Ela pode ser usada no lugar do arroz, como salada ou mesmo na massa de pes, bolos e macarro.
Por que comer - Bastante proteica, possui vrios dos aminocidos essenciais para o corpo humano.

AMARANTO
Consumido por incas, astecas e maias, esse pseudocereal voltou  moda na ltima dcada
Como comer - Txico quando cru, o amaranto pode ser usado j cozido, em gros, em saladas e sopas, ou em flocos, na salada de frutas ou na vitamina.
Por que comer - Seu consumo tem sido associado a baixas no ndice de colesterol ruim e ao controle da presso arterial.

CHIA
Semente de origem mexicana
Como comer - Pura ou em frutas ou saladas.
Por que comer - Em dietas de emagrecimento,  ingerida meia hora antes das refeies, para aumentar a sensao de saciedade.


